Há datas no calendário que viram mais que simples momentos aleatórios e se convertem em símbolos profundos uma nação. Se o tempo consegue sepultar alguns acontecimentos, a memória tem o poder de fazer certos dias permanecerem vivos e servindo de guia para o futuro. O dia 25 de outubro é uma dessas datas. Em 2026, será quando mais de 158 milhões de brasileiros e brasileiras voltarão às urnas para decidir o segundo turno da eleição presidencial. Voltando para 1975, o dia resgata a lembrança de um dos maiores símbolos da violência política da história do Brasil. O encontro entre esses dois momentos no próximo domingo, então, possuí um simbolismo único na história do país, quando a votação que define os rumos do país ocorre no Dia Nacional da Defesa da Democracia.DIA NACIONAL DA DEFESA DA DEMOCRACIAO pleito de 2026 coloca frente a frente dois projetos distintos no segundo turno, entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), que apresentam divergências políticas nas discussões sobre propostas de governo, manutenção dos direitos, políticas públicas, liberdades civis e as garantias fundamentais conquistadas desde a Constituição de 1988.Por uma coincidência de calendário, o segundo turno das eleições de 2026 ocorrerá no Dia Nacional da Defesa da Democracia, data que marca o aniversário da morte do jornalista Vladimir Herzog, assassinado em 1975 nas dependências do DOI-CODI em São Paulo, durante a ditadura militar. A farsa do suicídio forçada pelo regime gerou grande indignação popular e virou um símbolo na luta pela redemocratização do país.Diante do peso simbólico dessa data, a senadora Eliziane Gama (PT-MA) apresentou no Senado o Projeto de Lei 6.103/2023, que busca oficializar em lei o 25 de outubro como o Dia Nacional de Defesa da Democracia. A parlamentar também é autora do Projeto de Lei 79/2023, que objetiva criar o "Dia Nacional da Resistência Democrática”, proposto após a tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023, para celebrar a resistência às invasões e aos atos ocorridos nas sedes dos Três Poderes, em Brasília, crime que resultou na prisão de mais de mil envolvidos, incluindo posteriormente o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por cinco crimes relacionados à data.



“O tema, apesar de central em nossa história, ficou diluído em outras datas comemorativas, como a da Independência e a da Proclamação da República, só para citar aquelas mais importantes. É preciso lembrar que a democracia passou a se constituir em um dos valores mais simbólicos do nosso país — que experimentou ditaduras dolorosas —, e, assim, deve ser celebrado com exclusividade”, afirmou Eliziane ao apresentar a proposta sobre a data, em janeiro de 2024.VLADIMIR HERZOG E A DEFESA DA DEMOCRACIAA origem do Dia da Democracia remonta ao assassinato do jornalista e cineasta Vladimir Herzog, mártir da resistência contra a ditadura e vítima da violência de Estado. Nascido na Iugoslávia e formado em Filosofia, Vlado, como era conhecido, construiu carreira no jornalismo cultural, atuou no Serviço Brasileiro da Rádio BBC de Londres e lecionou em universidades brasileiras até assumir a direção de jornalismo da TV Cultura em 1975. Alvo de perseguição política, ele foi convocado a depor no DOI-CODI de São Paulo em 24 de outubro daquele ano. Ao se apresentar voluntariamente no dia seguinte, foi detido e submetido a choques elétricos e torturas brutais, enquanto os agentes ligavam um rádio alto para ocultar seus gritos. Morto aos 38 anos nas dependências do Exército, Herzog teve sua execução mascarada por uma farsa que simulava um suicídio por enforcamento, cena montada como anos mais tarde o próprio fotógrafo encarregado do registro acabaria confessando.O crime brutal escancarou o caráter bárbaro da ditadura militar. O rabino Henry Sobel recusou-se a sepultá-lo na ala dos suicidas ao constatar os indícios evidentes de tortura, dando reforço ao movimento político por justiça à sua morte. Em 31 de outubro de 1975, mais de 8 mil pessoas reuniram-se na Catedral da Sé para um ato ecumênico liderado por Dom Paulo Evaristo Arns, Henry Sobel e James Wright, ato que desafiou a repressão e tornou-se o ponto de virada rumo à redemocratização. A farsa perdeu mais força com a mobilização de 1.004 jornalistas no manifesto "Em Nome da Verdade" e a atuação da Justiça, até que em 1978, a União foi condenada pela prisão e morte do jornalista. A certidão de óbito do jornalista foi corrigida em 2012, passando a afirmar que o falecimento decorreu de maus-tratos em dependências militares durante o regime da ditadura, e o Brasil acabou sendo condenado pelo crime na Corte Interamericana de Direitos Humanos em 2018.VOTAR É DEMOCRACIAPassados 51 anos dessa tragédia, a data ressurge em 2026 como um símbolo para o gesto cidadão nas urnas. Em uma carta aberta divulgada na véspera da eleição, o filho do jornalista, Ivo Herzog, reflete sobre o peso desse momento na consciência nacional. “25 de outubro é o Dia da Democracia. Data que marca o assassinato de Vladimir Herzog. Neste dia, para mim, a memória também vai às urnas”, afirmou Ivo.Nesse contexto, votar no Dia da Democracia ganha um simbolismo maior do que cumprir um dever eleitoral, se tornando um reforço com a preservação das liberdades política nacional, com as urnas eletrônicas brasileiras, céleres, auditáveis e consolidadas pela Justiça Eleitiral, representando um depósito democrático da vontade do povo para os próximos quatro anos do país.

Fonte original: https://dol.com.br/noticias/politica/966445/2-turno-das-eleicoes-ocorre-no-dia-da-defesa-da-democracia