A conta de energia ficou mais cara no Pará. A ANEEL homologou o reajuste de 2026 da Equatorial Pará em 6,94%, em média. Na baixa tensão, o efeito foi de 6,66%; para o residencial B1, de 6,70%; e, na alta tensão, de 8,09%. O que chama atenção, porém, é outro número: antes da aplicação de um mecanismo extraordinário de modicidade tarifária, o efeito médio calculado chegava a 13,41%. Ou seja, o reajuste foi elevado, mas poderia ter sido quase o dobro.A diferença veio, em grande parte, de R$ 557,01 milhões destinados ao processo tarifário da Equatorial Pará a partir da repactuação de obrigações futuras de Uso de Bem Público, o UBP, relacionadas a concessões hidrelétricas. Esse recurso não saiu da margem da distribuidora. A legislação permitiu antecipar pagamentos futuros de UBP por valor correspondente a 50% do valor presente das parcelas vincendas. Os recursos passaram pela Conta de Desenvolvimento Energético, a CDE, e foram utilizados para modicidade tarifária nas áreas da Sudam e da Sudene. Para o consumidor paraense, o efeito foi decisivo: de 13,41% para 6,94%.Mesmo com essa redução, o reajuste ficou acima da inflação. O IPCA acumulado em 12 meses até agosto foi de 4,22%. Assim, o reajuste médio da energia ficou 2,72 pontos percentuais acima do IPCA. A comparação não significa que a tarifa seja corrigida pela inflação, porque o reajuste elétrico segue metodologia própria, mas ajuda a dimensionar o impacto no orçamento.Quer ler mais notícias do Pará? Acesse o canal do DOL no WhatsApp!O aumento não veio de um único componente. A compra de energia exerceu a maior pressão econômica, com contribuição aproximada de 3,19 pontos percentuais. As receitas irrecuperáveis, relacionadas à inadimplência reconhecida pela regulação, contribuíram com 2,16 pontos; os encargos setoriais, com 1,43 ponto; e a transmissão, com 0,43 ponto. Em sentido contrário, a Parcela B, ligada à atividade de distribuição, teve efeito de aproximadamente -1,40 ponto percentual, ajudando a conter o resultado.Também é importante compreender que nem tudo o que aparece na conta fica com a distribuidora. Uma parte paga compra de energia, transmissão e encargos; outra remunera a atividade de distribuição; e tributos também pesam no valor final. A composição abaixo corresponde à participação média dos segmentos de custo na receita da distribuidora considerada pela ANEEL no processo tarifário de 2026, com tributos, e ajuda a visualizar por que uma única fatura reúne custos de naturezas diferentes.As novas tarifas passaram a valer em 18 de setembro. Isso não significa, porém, que todos verão imediatamente o reajuste integral. Nas primeiras faturas, podem existir dias cobrados pela tarifa antiga e dias pela nova. O efeito cheio aparece quando todo o período de consumo estiver dentro da nova vigência, o que tende a ocorrer após aproximadamente um ciclo de faturamento, perto de um mês.Por isso, os 6,94% são uma média regulatória, e não necessariamente o aumento exato de cada conta. O impacto dependerá da classe, modalidade tarifária, consumo, demanda contratada, tributos, bandeiras e demais componentes da fatura. O consumidor não precisa apenas saber quanto vai pagar. Ele tem o direito de entender por que está pagando.**João de Deus Lobato é engenheiro eletricista, ex-executivo da distribuidora do Pará, articulista semanal do Diário do Pará, do portal DOL e da Gazeta do Amapá, consultor em energia e apresentador do podcast ÉLivre com João Lobato.

Fonte original: https://dol.com.br/colunistas/joao-de-deus-lobato/963847/a-conta-de-luz-subiu-694-no-para-mas-poderia-ter-subido-quase-o-dobro