O Auto do Círio 2026 percorre as ruas do bairro da Cidade Velha, no Centro Histórico de Belém, nesta sexta-feira (9), a partir das 18h. Em sua 32ª edição, o cortejo artístico-cultural reúne cerca de 500 artistas-devotos em uma manifestação que combina fé, teatro, música e valorização da identidade amazônica. Neste ano, o evento homenageia Nossa Senhora de Nazaré com o tema “Maria, Salvai e Guardai o nosso Patrimônio Sagrado e Nossa Fé”.Com saída da Praça do Carmo, o cortejo passa pela Igreja da Sé e pelo Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP), com encerramento no Museu do Estado do Pará. A participação é gratuita e aberta ao público.A proposta desta edição é transformar as ruas do Centro Histórico em espaços de expressão artística, memória e resistência, chamando a atenção para a preservação do patrimônio cultural material e imaterial da Amazônia paraense. A programação reúne artistas de Belém e de outros municípios, em uma celebração que aproxima o sagrado e o profano.CONTEÚDOS RELACIONADOS:Auto do Círio 2026 terá lançamento com tributo a ZéliaAuto do Círio reúne fé, cultura e resistência no centro histórico de BelémAuto do Círio completa 32 anos de históriaCriado como uma manifestação artística ligada às celebrações do Círio de Nazaré, o Auto do Círio consolidou-se como uma tradição cultural de Belém. O projeto de extensão da Universidade Federal do Pará (UFPA) leva teatro, música, dança e outras expressões artísticas às ruas, reunindo artistas, devotos, pesquisadores e comunidades.Ao longo de sua trajetória, o cortejo tornou-se também um espaço de valorização da diversidade cultural e de ocupação artística do Centro Histórico. Em 2026, a organização retoma uma proposta inicial concebida por Zélia Amador de Deus e Margareth Refkalefsky, atualizando a reflexão sobre a identidade amazônica e os desafios enfrentados pela preservação da memória da cidade.Segundo a diretora-geral do Auto do Círio, professora Inês Ribeiro, chegar à 32ª edição significa reafirmar a importância de uma tradição que permanece viva e necessária.“O Auto do Círio é uma celebração da nossa identidade, da nossa fé e da nossa memória. É quando o sagrado e o profano se encontram nas ruas e a arte se transforma em uma forma de vigília, resistência e defesa da nossa cultura”, afirma.Quer mais notícias do Círio? Acesse nosso canal no WhatsAppTema destaca a defesa do patrimônio culturalA edição de 2026 propõe uma reflexão sobre as ameaças ao patrimônio histórico e às manifestações culturais da Amazônia. A justificativa do evento destaca que o apagamento de tradições, a degradação de edificações históricas, a especulação imobiliária e a negligência institucional representam desafios à preservação da memória coletiva.A proposta também resgata a contribuição histórica dos povos indígenas, das populações negras e das comunidades ribeirinhas para a formação cultural paraense, cujas expressões artísticas e práticas de espiritualidade foram silenciadas ao longo do processo de colonização.Nesse contexto, o Auto do Círio pretende ocupar simbolicamente os espaços do Centro Histórico e reforçar a importância da proteção dos patrimônios material e imaterial.Para Inês Ribeiro, a mensagem central é que “salvar e guardar” significa assumir um compromisso com a identidade cultural da região.“Queremos lembrar que proteger o patrimônio é também proteger as histórias, as tradições, a fé e as manifestações culturais que constituem a identidade amazônica paraense. Nossa fé e nossa memória precisam permanecer vivas e ocupar as ruas da cidade”, destaca a diretora.



Cartaz faz referência à arte sacra e à arquitetura paraenseA identidade visual do Auto do Círio 2026 também dialoga com a proposta de valorização do patrimônio. O cartaz, criado pelo professor Néder Charone, tem como inspiração a obra de arte sacra “O Milagre dos Marinheiros”.Na releitura, a tempestade representada na obra original simboliza as incertezas contemporâneas, como o risco de apagamento histórico, a deterioração da arquitetura e o descaso com as tradições culturais. Nossa Senhora de Nazaré aparece metaforicamente como protetora da cultura paraense, acolhendo sob seu manto a diversidade de expressões que compõem a identidade regional.O desenho incorpora ainda referências ao estilo arquitetônico popular conhecido como “raio que o parta”, marcado por composições geométricas e mosaicos de azulejos presentes em edificações paraenses.A imagem associa a proteção mariana à salvaguarda dos edifícios históricos, das manifestações artísticas, dos saberes tradicionais e das práticas culturais transmitidas entre gerações.Dira Paes será homenageada no encerramentoA atriz paraense Dira Paes, embaixadora do Auto do Círio 2026, tem participação confirmada no evento e será homenageada ao final do cortejo, no Museu do Estado do Pará.A edição também prestará homenagem a Zélia Amador de Deus, professora, ativista e uma das fundadoras do Auto do Círio. Além de uma ala dedicada a ela durante o percurso, a programação prevê um momento especial com a participação de sua família no palco final.A homenagem reconhece a contribuição de Zélia para a história do projeto e para a valorização da cultura, da diversidade e da ocupação artística dos espaços públicos de Belém.Com cerca de 500 artistas-devotos nas ruas, o Auto do Círio 2026 reafirma a proposta de unir fé e expressão artística em defesa da memória coletiva. Mais do que integrar a programação cultural do Círio de Nazaré, o cortejo pretende transformar a celebração em um chamado à preservação do patrimônio e das tradições da Amazônia paraense

Fonte original: https://dol.com.br/noticias/cirio-de-nazare/965090/auto-do-cirio-fe-e-resistencia-nas-ruas-de-belem-e-homenagem-a-dira-paes