Relatórios de inteligência financeira do Coaf apontam movimentações atribuídas ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como incompatíveis com sua renda. Entre os dados, consta a movimentação de R$ 1,3 milhão em apenas três meses. Além disso, os documentos indicam que um repasse ligado a um escritório de advocacia foi utilizado na quitação de uma mansão do parlamentar em Brasília, no Lago Sul.Leia também:Entenda o que é proibido e saiba como denunciar boca de urna!TSE proíbe Nikolas Ferreira e Pablo Marçal de publicações eleitoraisAs informações foram publicadas por O Globo neste sábado (24), véspera do segundo turno presidencial entre Flávio e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), marcado para domingo. Os relatórios integram a investigação da Polícia Federal sobre as relações financeiras entre Flávio e o advogado Willer Tomaz. Contudo, os apontamentos do Coaf ainda dependem de investigação, contraditório e avaliação judicial.O Coaf produz um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) quando identifica indícios fundados de lavagem de dinheiro ou outros ilícitos e, nesses casos, encaminha o material às autoridades competentes. Por isso, a existência de um RIF justifica aprofundamento investigativo, mas não equivale a uma condenação.A expressão "incompatível com a renda" também não significa, por si só, que os valores sejam de origem ilícita. Portanto, a investigação precisa identificar a origem de cada transferência, verificar declarações fiscais e confrontar os valores com os rendimentos do senador.Flávio e a esposa compraram em 2021 uma casa de alto padrão no Setor de Mansões Dom Bosco, negociada por cerca de R$ 5,97 milhões. Do total, R$ 2,87 milhões vieram de recursos próprios e R$ 3,1 milhões foram financiados pelo Banco de Brasília (BRB) em contrato de 360 meses, com prestação inicial de cerca de R$ 18,7 mil.Ainda assim, o financiamento foi encerrado em cerca de três anos. Entre novembro de 2022 e março de 2024, o senador realizou seis amortizações extraordinárias que somaram aproximadamente R$ 3,4 milhões, conforme a sequência abaixo:R$ 697.627,32 em 08/11/2022;R$ 696.502,07 em 21/11/2022;R$ 996.819,14 em 17/01/2023;R$ 249.706,32 em 04/08/2023;R$ 198.621,32 em 20/09/2023;R$ 520.277,28 em 21/03/2024.A quitação antecipada não é irregular. No entanto, a origem dos recursos utilizados nessas amortizações tornou-se objeto da investigação federal.O escritório Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia foi constituído em 16/04/2021, meses depois da compra da mansão, e tem como endereço o próprio imóvel. Levantamento de outubro de 2026 indicou que a sociedade emitiu 62 notas fiscais que somam R$ 13,7 milhões entre janeiro de 2023 e julho de 2026, grande parte delas com a descrição de "assessoria jurídica".A apuração jornalística localizou apenas um processo judicial diretamente ligado aos clientes identificados. Esse dado, isoladamente, não prova ausência de serviços, pois a advocacia inclui consultoria, pareceres e atividades extrajudiciais. Contudo, caso o Coaf tenha identificado uma transferência advocatícia diretamente ligada ao pagamento do imóvel, será necessário confrontar nota fiscal, contrato, serviço prestado e o respectivo pagamento ao BRB.A investigação também alcança a relação entre Flávio e Willer Tomaz. Documentos bancários obtidos pela PF indicariam que o senador aparecia cadastrado como "usuário master" em uma conta ligada à Alcazar Holdings, empresa de Tomaz registrada na Ilha da Madeira. Em 22/05/2025, o registro foi supostamente removido. Flávio e Tomaz negam que tenham compartilhado conta ou mantido sociedade financeira.Os investigadores também analisam viagens internacionais realizadas por Flávio e familiares em companhia de Tomaz, além de movimentações ligadas ao mercado de apostas. As informações públicas disponíveis, por ora, não demonstram que recursos desviados em investigações previdenciárias tenham sido transferidos ao senador.Na sexta-feira (23), o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou medidas contra Tomaz, que incluem:Quebra de sigilos bancário, fiscal e cambial;Bloqueio de bens e valores de até R$ 6 bilhões;Fornecimento de dados sobre operadores de contas de empresas vinculadas ao advogado.Essas medidas alcançam Tomaz e as estruturas sob investigação. Logo, não implicam responsabilização automática de Flávio Bolsonaro. Ainda assim, a análise dos dados bancários pode permitir que a PF identifique movimentações entre as empresas do advogado, o senador e seu escritório. Flávio não se manifestou especificamente sobre os novos relatórios até a publicação da reportagem. Em ocasiões anteriores, o senador afirmou que seu patrimônio resulta de suas atividades como parlamentar, empresário e advogado, e classificou os recursos da quitação como "lícitos e fruto do suor de meu trabalho". No último debate presidencial, na noite de sexta, ele repetiu a mesma versão.A Justiça do Distrito Federal já concluiu, em ação popular ajuizada pela deputada Erika Kokay (PT-DF), que não houve irregularidade na concessão do financiamento pelo BRB. Em 25/09/2025, o TJDFT manteve essa decisão. Contudo, essa conclusão trata apenas das condições do crédito concedido pelo banco e não responde às questões sobre a origem dos recursos usados para pagá-lo.O segundo turno presidencial ocorre neste domingo (25). No primeiro turno, Flávio obteve 56.104.268 votos (47,03%) e Lula recebeu 53.876.617 (45,16%), segundo dados oficiais do TSE. A proximidade entre a divulgação e a votação amplia a repercussão do caso, mas não altera os requisitos jurídicos da investigação.Os próximos passos caberão: À Polícia Federal, responsável pelo rastreamento financeiro;À Procuradoria-Geral da República, que avaliará eventual repercussão penal; Ao STF, responsável pelas medidas judiciais;Às defesas de Flávio e Tomaz, que deverão confrontar documentalmente os indícios levantados. Quer receber mais notícias do Brasil e do mundo? Acesse o canal do DOL no WhatsApp!Até que esse processo seja concluído, as movimentações apontadas como atípicas devem ser tratadas como objeto de investigação, não como prova de responsabilidade criminal.

Fonte original: https://dol.com.br/noticias/politica/966466/coaf-aponta-movimentacoes-financeiras-suspeitas-de-flavio-bolsonaro