Uma grave crise bancária, que ameaça as economias de milhões de paraguaios, ultrapassou os limites do sistema financeiro e chegou ao centro do poder político do país. O episódio teve origem no colapso do Ueno Bank, instituição que apresentou crescimento acelerado e chegou a reunir clientes equivalentes a quase 60% da população adulta do Paraguai. O caso apresenta semelhanças com o escândalo do Banco Master, no Brasil, que envolve investigações sobre suspeitas de fraudes financeiras e irregularidades em operações da instituição, controlada pelo banqueiro Daniel Vorcaro, além de questionamentos sobre as relações com políticos, integrantes do governo e autoridades do Judiciário.Nos dois países, as crises levantaram suspeitas sobre operações financeiras, recursos de fundos previdenciários e possíveis vínculos entre empresários e integrantes do poder público. Contudo, no Paraguai os desdobramentos atingiram diretamente a Presidência. Conteúdos relacionados: Ex-marido de galerista morto no Rio é condenado à prisão perpétua nos EUACrise no Paraguai: manifestantes e polícia entram em confrontoEduardo Bolsonaro governado por PT de Talarico? Entenda o que ocorreuNesta quinta-feira (05/11), o presidente Santiago Peña anunciou que deixaria o cargo, mas o Congresso rejeitou a renúncia e decidiu dar continuidade ao processo de impeachment. Uma nova sessão do Senado está prevista para ser realizada ainda nesta sexta-feira (06/11), quando o afastamento deverá voltar à discussão. Nas redes sociais, Peña afirmou que pretende exercer o direito à defesa durante o processo. Em contrapartida, a oposição defende o impeachment do presidente para que ele possa responder a eventuais processos judiciais sem a proteção do foro privilegiado. A pressão pelo afastamento de Penã aumentou ainda mais após o Partido Colorado, legenda do próprio presidente, declarar apoio ao pedido. A decisão foi endossada por Horacio Cartes, ex-presidente do Paraguai e principal liderança da sigla. "Não estaremos do lado do desvio de recursos públicos, privados e dos fundos dos aposentados. Precisamos pensar nas pessoas e nos valores que defendemos no Partido Colorado. Apoiamos o impeachment do presidente da República, Santiago Peña, para restabelecer a institucionalidade do país", afirmou Cartes em comunicado.Eleito em abril de 2023, Penã é economista e trabalhou durante dez anos no Banco Central paraguaio, onde passou pelas áreas de Pesquisas Econômicas e direção. Alinhado à direita e próximo de Donald Trump, ele está sendo acusado pela oposição de conflito de interesses, uso indevido de recursos públicos e tentativa de encobrir irregularidades relacionadas ao banco.Como o Ueno Bank chegou ao colapso?A instituição foi criada em 1976 pela Financeira El Comercio. Em abril de 2021, após 45 anos de atividade, a empresa foi adquirida pelo Grupo Vázquez, operação autorizada pelo Banco Central do Paraguai em setembro daquele ano. Já em novembro de 2023, a financeira recebeu autorização para se transformar no Ueno Bank e, no ano seguinte, aumentou a presença no mercado com a incorporação do Visión Banco, que acrescentou mais de 1 milhão de clientes, agências e uma das maiores carteiras de depósitos do país.A expansão foi acompanhada de uma estratégia baseada em serviços digitais, descontos e devolução de parte do valor das compras. No fim de 2023, durante a comemoração da transformação em banco, os dirigentes destacavam que a instituição já tinha mais de 500 mil clientes e havia incluído aproximadamente 140 mil pessoas no sistema financeiro. "Isso está apenas começando", declarou Juan Manuel Gustale, então presidente do Ueno, durante o evento realizado na Ueno SND Arena, em Assunção.Nos anos seguintes, a instituição manteve o crescimento em ritmo acerelado. Já em setembro deste ano, o bando afirmava reunir mais de 3 milhões de clientes em um país com 6,5 milhões de habitantes, além de realizar mais de 3 milhões de transações por dia.Contudo, a expansão foi interrompida no dia 03 de novembro, quando o Banco Central anunciou o início do processo de resolução da instituição. A decisão ocorreu após a constatação de que o índice de solvência, que mede a capacidade de absorver perdas, havia caído para menos da metade do mínimo exigido. Segundo as autoridades do país, na ocasião, o Ueno acumulava cerca de US$ 3,75 bilhões em ativos e representava aproximadamente 9,1% dos depósitos do sistema bancário paraguaio.Com a intervenção, depósitos e operações foram congelados, clientes perderam temporariamente o acesso às contas, aos cartões e ao dinheiro mantido no banco, o que provocou filas nas agências, protestos pelo país e dificuldades para pagar despesas básicas, como aluguel, alimentação e transporte.Quer receber notícias direto no celular? Acesse nosso canal no WhatsApp!As semelhanças com o Banco Master no BrasilA recente comparação entre os dois episódios envolve principalmente a velocidade de crescimento das instituições, a captação de grandes volumes de recursos e os questionamentos sobre a relação com o poder público. No Brasil, o Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025, após problemas financeiros e suspeitas de fraude. Mas, diferentemente do Ueno, que conquistou clientes com serviços digitais, descontos e benefícios nas compras, o Master atraiu investidores com CDBs que ofereciam rendimentos muito superiores à média do mercado.Outro ponto em comum entre os dois episódios é o envolvimento de recursos previdenciários. No Paraguai, o Ueno administrava aproximadamente US$ 850 milhões em dinheiro público, incluindo valores do Instituto de Previdência Social (IPS), responsável por aposentadorias, pensões e outros benefícios. No Brasil, segundo dados do Ministério da Previdência Social, regimes próprios de previdência de Estados e municípios investiram cerca de R$ 1,8 bilhão em títulos emitidos pelo Master.Além disso, as relações com autoridades também passaram a ser investigadas nos dois países. No Paraguai, o Banco Central identificou empréstimos considerados excessivos a empresas ligadas ao grupo controlador do Ueno. Já no Brasil, a extensa rede de contatos de Daniel Vorcaro, proprietário do Master, com políticos, integrantes do governo e autoridades do Judiciário entrou no radar das investigações. Também houve questionamentos sobre uma tentativa de negociação do Master com o Banco de Brasília (BRB), instituição pública controlada pelo governo do Distrito Federal, mas a operação foi barrada pelo Banco Central em 2025.Contudo, apesar das semelhanças, o impacto de cada instituição no sistema financeiro nacional era bastante diferente. Enquanto o Ueno representava 9,1% dos depósitos bancários paraguaios, o Master correspondia a aproximadamente 0,55% das captações do sistema financeiro brasileiro.No campo criminal, os dois casos também tiveram desdobramentos. Vorcaro foi preso preventivamente em novembro de 2025, permaneceu detido por onze dias e voltou a ser preso em março de 2026, no âmbito das investigações sobre suspeitas de fraude financeira.No Paraguai, a Justiça determinou, no último dia 5 de novembro, a prisão preventiva de seis ex-dirigentes e executivos do Ueno, entre eles Gustale e Federico Miguel Vázquez Villasanti, fundador do Grupo Vázquez. Outras duas ex-diretoras também receberam prisão domiciliar. Os investigados são suspeitos de crimes que incluem abuso de confiança, tentativa de fraude e conduta indevida em situação de crise, mas as acusações ainda serão examinadas pela Justiça.Vínculos com o governo e suspeitas sobre recursos públicosUm dos principais focos da crise no Paraguai está na relação entre o Grupo Vázquez, controlador majoritário do Ueno, e integrantes do governo paraguaio. Um dos principais nome é do próprio presidente Santiago Peña, que esteve listado entre os acionistas da Ueno Holding, estrutura que reúne empresas como Ueno Seguros, itti e Grupo Vázquez. Porém, em março de 2025, ele deixou de integrar o grupo e, na ocasião, negou qualquer participação direta no banco."Eu fui investidor, sou economista, me especializei em Finanças e fiz um investimento há seis anos na empresa Credi Centro, que posteriormente se transformou na Ueno Holding. Nunca foi o banco Ueno. Não tenho nenhuma ligação com o banco Ueno", declarou a jornalistas em abril de 2025.Outro nome envolvido na controvérsia é Carlos Carvallo Spalding, que presidiu a Financeira Ueno antes de assumir o comando do Banco Central, em agosto de 2023, e apresentou a renúncia à autoridade monetária em meio à crise. A transformação do Ueno em banco foi autorizada em novembro de 2023, durante a gestão dele à frente do órgão regulador, apenas três meses depois de Santiago Peña assumir a Presidência.
Fonte original: http://dol.com.br/noticias/mundo-noticias/967600/crise-bancaria-no-paraguai-lembra-caso-master-e-ameaca-presidente
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