Uma montanha-russa do Hopi Hari, em Vinhedo, no interior de São Paulo, deixou a brasileira Julia Rimoli Bossoni, de 28 anos, com graves lesões neurológicas após um passeio ocorrido em 20 de abril. A jovem perdeu os movimentos do lado esquerdo do corpo e, segundo a defesa da família, sofreu hemorragias intracranianas que exigiram uma cirurgia de emergência.O caso ganhou repercussão no último domingo (20/09), após ser revelado pela Globo, em reportagem levada ao ar no programa Fantástico. Exames realizados depois do acidente apontaram traumatismo craniano grave, associado a edema cerebral.CONTEÚDO RELACIONADOMenopausa: 8 sinais que podem aparecer antes da última menstruaçãoDia Mundial do Alzheimer: 3 hábitos que podem ajudar a reduzir o riscoLesão na córnea: caso de Ana Maria Braga alerta para riscos do ar-condicionadoCOMO ACONTECEU A LESÃO SEM UMA PANCADA?Segundo as informações divulgadas sobre o caso, Julia não bateu a cabeça durante o percurso. A suspeita é de que ela tenha sido submetida a um movimento conhecido como “efeito chicote”, ou whiplash, provocado por uma aceleração ou desaceleração repentina do pescoço.O mecanismo pode produzir forças importantes sobre o cérebro e a coluna cervical, mesmo quando não existe contato direto da cabeça com alguma superfície.Quer mais notícias de saúde? Acesse o canal do DOL no WhatsApp.O neurologista Victor Hugo Espíndola, integrante da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia e da Sociedade Brasileira de Neurorradiologia Diagnóstica e Terapêutica, explica que o cérebro fica suspenso dentro do crânio e pode sofrer movimentos de translação e, principalmente, de rotação.Essas forças podem provocar uma concussão, com alterações funcionais e metabólicas no cérebro, sem que necessariamente exista uma pancada na cabeça.MOVIMENTO TAMBÉM PODE AFETAR A COLUNAO impacto de acelerações e desacelerações não fica restrito ao cérebro. A coluna cervical também pode receber parte significativa da carga produzida pelo movimento.Músculos, ligamentos, articulações e discos estão entre as estruturas que podem sofrer lesões. Em situações mais graves, raízes nervosas ou a própria medula espinhal também podem ser atingidas.As ocorrências mais comuns tendem a ser musculoesqueléticas. Entre elas estão distensões musculares e lesões cervicais provocadas pelo chamado efeito chicote, que podem resultar em dor e limitação dos movimentos.Dados recentes envolvendo menores de idade atendidos depois de passeios em montanhas-russas apontam predominância de lesões cervicais, sendo a distensão muscular o diagnóstico mais frequente.CASOS NEUROLÓGICOS GRAVES SÃO RAROSApesar de movimentos bruscos poderem provocar diferentes tipos de trauma, complicações neurológicas graves, como a registrada no caso de Julia, são consideradas menos frequentes.De acordo com Victor Hugo Espíndola, existem relatos médicos de complicações após atrações caracterizadas por alta velocidade e aceleração, mas esses eventos são considerados raros.O especialista também chama atenção para outro possível mecanismo. Em situações de movimentos extremamente intensos, artérias localizadas no pescoço, como as carótidas e vertebrais, podem sofrer uma dissecção. Esse tipo de lesão pode provocar um acidente vascular cerebral (AVC).A gravidade de um eventual trauma varia conforme fatores como intensidade da força aplicada, direção do movimento, posição do corpo e características individuais de cada pessoa.QUAIS SINTOMAS EXIGEM ATENDIMENTO MÉDICO?Após um acidente ou passeio em uma atração de alta intensidade, alguns sintomas podem indicar a necessidade de avaliação médica imediata.Entre os principais sinais de alerta estão:dor de cabeça intensa, súbita ou que aumenta progressivamente;vômitos repetidos;perda de consciência;confusão mental ou sonolência excessiva;convulsões;alterações na fala;fraqueza ou formigamento em um dos lados do corpo;alterações visuais importantes ou visão dupla;dificuldade para caminhar;perda significativa do equilíbrio;dor cervical intensa;perda de força ou mudanças na sensibilidade dos braços ou das pernas.A neurologista Lorena Bochenek, do Hospital Mater Dei, ressalta que esses sintomas são especialmente importantes quando surgem após um possível trauma neurológico.Segundo a médica, não é recomendado simplesmente aguardar que os sinais desapareçam. Uma avaliação profissional é necessária para verificar a existência de traumatismo craniano, lesão cervical ou outra complicação neurológica.QUEM PODE ESTAR MAIS VULNERÁVEL?Algumas pessoas podem apresentar maior vulnerabilidade a determinados mecanismos de trauma. É o caso de quem possui alterações importantes na coluna cervical, instabilidade, histórico de cirurgia ou lesões anteriores. Crianças e idosos também apresentam características anatômicas e biomecânicas diferentes das observadas em adultos jovens. A atenção deve ser redobrada ainda por quem sofreu recentemente um traumatismo craniano ou permanece com sintomas relacionados a uma concussão. Isso, porém, não significa que uma alteração pré-existente na coluna vá necessariamente provocar uma lesão durante um passeio.De acordo com Lorena Bochenek, o risco está relacionado a uma combinação de fatores, incluindo a intensidade e a direção da força, a posição do corpo e as características individuais.COMO DIMINUIR OS RISCOS NA MONTANHA-RUSSA?Quem decide participar de atrações com acelerações, desacelerações ou rotações intensas deve respeitar rigorosamente as recomendações de segurança estabelecidas pelo parque.Isso inclui observar limites de idade, altura e peso, além de eventuais restrições relacionadas a condições de saúde.Pessoas com doenças cervicais importantes, cirurgia recente na coluna, sintomas neurológicos ou outras condições que possam elevar o risco devem conversar previamente com um médico antes de utilizar brinquedos desse tipo.A mesma recomendação vale para quem teve recentemente concussão, traumatismo craniano ou cervical, apresenta dor significativa no pescoço, possui doença relevante na coluna ou tem alguma condição vascular conhecida.INVESTIGAÇÃO APURA ACIDENTE NO HOPI HARIO caso de Julia passou a ser investigado pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP).O Ministério Público requisitou diferentes diligências para esclarecer as circunstâncias do acidente. Entre as medidas estão uma perícia técnica no carrinho e na estrutura da Montezum, além da elaboração de um laudo indireto de corpo de delito.Os investigadores também solicitaram os prontuários médicos completos dos hospitais responsáveis pelo atendimento da jovem.Outro ponto da apuração envolve o sistema de fotografia comercial da atração. A advogada da família pediu que fossem realizadas vistorias presenciais nos equipamentos utilizados para registrar as imagens dos visitantes.O QUE DIZ O HOPI HARI?O Hopi Hari declarou que possui certificado internacional de segurança e afirmou seguir as normas estabelecidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).O parque também informou que manteve contato com a família de Julia após o acidente, com o objetivo de oferecer suporte, e disponibilizou o seguro para auxiliar no tratamento médico da jovem.
Fonte original: https://dol.com.br/noticias/te-cuida/963443/efeito-chicote-quais-lesoes-uma-montanha-russa-pode-provocar




