A cantora iraniana Parastoo Ahmadi, de 29 anos, teve confirmada pela Justiça do Irã a condenação a 74 chibatadas por realizar e divulgar uma apresentação sem usar o hijab - véu tradicional usado por mulheres muçulmanas para cobrir os cabelos e o pescoço -, em dezembro de 2024. A decisão da primeira instância, proferida em junho, foi mantida por um tribunal de apelação da província de Qom, tornando a sentença definitiva, segundo informações divulgadas pela própria artista e por veículos internacionais.Além das chibatadas, Ahmadi e outros oito integrantes da equipe receberam proibição de exercer atividades audiovisuais por dois anos e restrição para deixar o Irã pelo mesmo período. A Justiça iraniana classificou o conteúdo divulgado na internet como ofensivo à moral pública e contrário às normas legais e culturais do país.CONTEÚDO RELACIONADOIraniana é condenada à morte após participar de protestos contra governoLeão XIV pede “máxima vigilância” contra abusos na FrançaEspanha aprova decreto que pode suspender despejos até 2030RECURSO FOI REJEITADO SEM NOVA AUDIÊNCIAA confirmação da sentença foi anunciada pela própria cantora em uma publicação no Instagram. Segundo Ahmadi, a Seção 16 do Tribunal de Recurso de Qom rejeitou as objeções apresentadas pela defesa e manteve "sem qualquer alteração" a decisão da Seção 122 do Tribunal Penal de Qom.O tribunal de segunda instância não realizou uma nova audiência para analisar o recurso. Um dos advogados da equipe afirmou que, na avaliação da defesa, a apresentação não constituía crime e que a primeira instância havia aplicado uma das punições mais severas disponíveis para as acusações.Quer mais notícias internacionais? Acesse o canal do DOL no WhatsApp.A defesa também questionou a utilização de acusações relacionadas à publicação de conteúdo considerado obsceno para enquadrar uma produção artística.COMO FOI O CONCERTO QUE PROVOCOU O PROCESSO
O episódio aconteceu em 11 de dezembro de 2024, quando Ahmadi publicou no YouTube um vídeo de aproximadamente 27 minutos chamado "Caravanserai Concert".A gravação foi realizada no histórico caravançarai de Deir Gachin, na província de Qom. A cantora aparece sozinha diante das câmeras, usando um vestido preto longo, com os ombros descobertos e sem o hijab. Ela é acompanhada por quatro músicos homens.O vídeo foi divulgado como uma espécie de concerto virtual e rapidamente ganhou enorme repercussão. A gravação acumulou milhões de visualizações no YouTube.Antes da transmissão, a página da cantora publicou uma mensagem na qual ela dizia ser uma mulher que queria cantar para as pessoas que amava. Ahmadi também afirmava que cantar para o país que amava era um direito que não poderia ignorar.MULHERES ENFRENTAM RESTRIÇÕES PARA CANTAR EM PÚBLICOO caso ganhou dimensão maior porque a legislação e as normas culturais aplicadas no Irã impõem restrições específicas às mulheres. Desde a Revolução Islâmica de 1979, mulheres enfrentam restrições para realizar apresentações vocais diante de públicos mistos. As regras também determinam o uso do hijab em espaços públicos.Segundo informações divulgadas pela EFE, mulheres iranianas não podem gravar discos e suas apresentações são submetidas a restrições, incluindo a possibilidade de shows apenas para plateias femininas e sem câmeras ou fotografias.No caso de Ahmadi, portanto, a acusação não se restringiu à ausência do véu. A presença de músicos homens, a realização da gravação e sua posterior distribuição pela internet também foram considerados pelas autoridades.Documentos relacionados à sentença de primeira instância indicaram que o tribunal considerou que a publicação na internet ampliou o alcance do conteúdo e, por isso, ultrapassou a esfera privada. A acusação também atingiu músicos, profissionais de produção, filmagem e edição envolvidos no projeto.ARTISTA JÁ HAVIA SIDO DENUNCIADA EM 2022A relação de Parastoo Ahmadi com as manifestações de oposição às regras sobre o hijab não começou com o concerto de 2024.Em 2022, a cantora já havia sido alvo de uma denúncia após publicar a música “From the Blood of the Youth of the Homeland” durante os protestos desencadeados pela morte de Mahsa Amini, jovem de 22 anos que morreu sob custódia após ser detida pela chamada Polícia da Moral por causa de regras relacionadas ao uso do véu.A morte de Amini desencadeou uma onda de manifestações em todo o país, com o movimento conhecido pela expressão "Mulher, Vida, Liberdade".Desde então, muitas mulheres passaram a aparecer em espaços públicos sem cobrir os cabelos, apesar da manutenção das restrições oficiais. O confronto entre desobediência civil e aplicação das normas tornou o hijab um dos principais pontos de tensão social no país.OUTROS OITO INTEGRANTES TAMBÉM FORAM CONDENADOSAhmadi não foi a única pessoa punida no processo. Oito músicos e integrantes da equipe de produção receberam as mesmas penas: 74 chibatadas, dois anos de proibição para atividades artísticas ou audiovisuais e dois anos de restrição para viajar para fora do Irã.Na primeira decisão, o tribunal citou dispositivos do Código Penal Islâmico e da legislação relacionada a crimes cibernéticos para sustentar as punições. A acusação envolvia “ofensa à decência pública” e publicação de material considerado imoral na internet.ARTISTAS E ENTIDADES DE DIREITOS HUMANOS CRITICAM PUNIÇÃOA sentença provocou reações de artistas iranianos e organizações de direitos humanos. A Anistia Internacional classificou a prática de açoitamento como uma punição cruel, desumana e degradante.O músico iraniano Hossein Alizadeh declarou que estaria disposto a receber as 70 chibatadas no lugar de Ahmadi. A cantora exilada Googoosh também se manifestou publicamente e defendeu o direito das mulheres de escolher como viver e se vestir e a liberdade de expressão artística.A organização de direitos humanos Abdorrahman Boroumand Center havia descrito a utilização de chibatadas como uma punição degradante e violenta, especialmente aplicada em casos envolvendo ativistas políticos e minorias étnicas.QUANDO A CANTORA DEVERÁ RECEBER AS CHIBATADAS?Ainda não está claro quando ou onde a punição corporal será executada. Informações publicadas após a confirmação da condenação indicam que os envolvidos poderão ser submetidos às chibatadas, mas não havia, até as informações mais recentes, uma data pública definida para o cumprimento da pena.A confirmação da sentença ocorre em meio a relatos de uma nova intensificação das medidas contra pessoas que desafiam as regras relacionadas ao hijab.O caso de Parastoo Ahmadi passou, assim, de uma apresentação musical publicada na internet para um processo judicial que colocou novamente no centro do debate internacional as restrições impostas às mulheres iranianas, a liberdade artística e o uso de punições corporais pelo sistema de Justiça do país.
Fonte original: https://dol.com.br/noticias/mundo-noticias/964187/ira-condena-cantora-a-74-chibatadas-por-ter-se-apresentado-sem-veu




