O comitê norueguês do Nobel anunciou nesta sexta-feira (9) que Navanethem "Navi" Pillay venceu o Nobel da Paz de 2026 por "seus esforços para promover a paz e o direito internacional". Jurista sul-africana, de origem indiana, ela foi juíza do Tribunal Penal Internacional (TPI) e Alta Comissária das Nações Unidas para Direitos Humanos.No ano passado, uma comissão da ONU liderada por Pillay, que investigou a guerra na Faixa de Gaza, concluiu que Israel havia cometido genocídio contra os palestinos. Tel Aviv condenou o relatório."Pillay responsabilizou Estados e líderes nacionais por suas ações, levou esperança às vítimas de violência e conflitos e demonstrou uma sólida bússola moral ao longo de sua extensa carreira", afirmou o comitê ao anunciar o prêmio.CONTEÚDOS RELACIONADOS:Anne Carson vence o Prêmio Nobel de Literatura 2026Nobel de Química premia cientistas por avanço na fabricação de remédiosQuestionado pela agência de notícias AFP, o comitê diz que não toma posição sobre se a campanha militar israelense em Gaza constitui genocídio. Tel Aviv criticou a escolha, afirmando que a entrega do prêmio a Pillay legitima o "ódio anti-Israel". Já organizações internacionais celebraram o anúncio, afirmando que a decisão representa uma vitória da justiça internacional.Pillay dedicou seu prêmio aos "sobreviventes de crimes internacionais" e pediu aos líderes mundiais que respeitem as instituições jurídicas internacionais. Ela participava de uma conferência anual de direitos humanos em Nuremberg, na Alemanha, e por isso não atendeu o telefone quando o comitê telefonou para avisá-la da premiação.Quando a notícia chegou à conferência, a sala com dezenas de colegas em que Pillay estava irrompeu em aplausos. A jurista fez piada sobre o apoio que recebeu dos colegas. "Se vocês aplaudirem mais, pode ser que eu divida esse prêmio com [Donald] Trump".No ano passado, a vencedora do Nobel da Paz foi a líder opositora venezuelana María Corina Machado, que posteriormente entregou sua medalha a Trump. O episódio deixou o comitê norueguês numa posição delicada, depois de a campanha aberta de Trump pelo prêmio —ainda que María Corina tenha dado a medalha para Trump, a honra continua sendo dela, uma vez que o prêmio não pode ser transferido, compartilhado ou revogado.Quer mais notícias do mundo? Acesse nosso canal no WhatsAppO anúncio do Nobel deste ano parece trazer, inclusive, um recado indireto ao presidente, ainda que sem citá-lo nominalmente. O TPI, onde Pillay atuou por oito anos, é há muito tempo alvo de pressão do presidente americano. A campanha contra o tribunal, que inclui sanções a juízes, se intensificou depois que a corte emitiu, no ano passado, mandados de prisão contra o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu ."O sistema de direito internacional está sob enorme pressão, e suas instituições estão sendo atacadas", afirmou o comitê do Nobel nesta sexta. "Estamos vendo uma mudança em direção à política de poder, em detrimento dos marcos jurídicos e do respeito global pelo direito e pela justiça."Horas após o anúncio, Trump fez outra investida e anunciou novas sanções contra o tribunal. A vice-promotora do TPI, Nazhat Shameem Khan, condenou a ação dos EUA e afirmou que ela não interromperá o trabalho do tribunal.A comissão especial da ONU liderada por Pillay investigou a fundo tanto o ataque terrorista do 7 de Outubro, que serviu de estopim para a guerra, quanto a retaliação israelense na Faixa de Gazae também na Cisjordânia ocupada. A investigação deu origem a um relatório que acusa Israel e o Hamas de crimes de guerra.O documento também conclui que Israel cometeu genocídio em Gaza com o objetivo de "destruir os palestinos" que vivem no território e culparam autoridades israelenses de alto escalão, incluindo Netanyahu, por incitar tais atos.Israel, que se recusou a cooperar com a investigação, rejeitou o documento, chamando de falsas as acusações. ""Hoje testemunhamos em tempo real como a promessa do ‘nunca mais’ é quebrada e testada diante dos olhos do mundo. O genocídio em curso em Gaza é um ultraje moral e uma emergência legal", disse Pillay a jornalistas logo após a divulgação do relatório.A sul-africana nasceu em 23 de setembro de 1941. Em 1967, abriu seu próprio escritório de advocacia e, durante o apartheid, defendeu ativistas de várias organizações, incluindo membros do Movimento da Consciência Negra e o próprio marido, preso sob a Lei de Terrorismo.O comitê do Nobel ressaltou que Pillay atuou "em alguns dos principais processos judiciais internacionais de nosso tempo". Após o fim do apartheid, foi juíza do Tribunal Penal Internacional para Ruanda (1995-2003), presidindo-o nos últimos quatro anos. Participou do julgamento de Jean-Paul Akayesu, que estabeleceu que estupro e violência sexual podem constituir atos de genocídio.Na África do Sul, ajudou a incluir a cláusula de igualdade na Constituição, que proíbe discriminação por raça, gênero, religião e orientação sexual, e cofundou a Equality Now, organização internacional de direitos das mulheres.Ao todo, 287 candidatos haviam sido indicados à láurea neste ano, dentre os quais 208 eram indivíduos, e 79, organizações. O número é menor do que o do ano passado, quando houve 338 indicações, e do que o de 2016, quando houve um recorde de 376 nomes.Mais curiosidades sobre a lista de indicados, no entanto, só poderão ser sanadas daqui a 50 anos. Os candidatos e aqueles que os indicaram —que envolvem, entre outros, líderes de países e quem eventualmente já foi laureado— ficam em sigilo por cinco décadas.O ganhador do Nobel da Paz recebe 12 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 5,9 milhões), entregue em Oslo no dia 10 de dezembro.O Nobel foi concedido pela primeira vez em 1901. Inicialmente, eram cinco categorias: paz, literatura, química, física e medicina. Uma sexta —economia— foi adicionada décadas mais tarde, em 1969.Até a metade do século 20, os laureados na principal categoria eram "políticos ativos que procuravam promover a paz internacional, a estabilidade e a justiça por meio da diplomacia e de acordos internacionais".Desde o fim da Segunda Guerra, porém, o prêmio passou a reconhecer esforços nas áreas de desarmamento, democracia e direitos humanos. Na virada para o século 21, o foco foi ampliado para incluir iniciativas que tentem conter a crise climática causada pelo homem.Relembre os dez vencedores anteriores do Nobel da Paz2025: A líder opositora venezuelana María Corina Machado por sua atuação pela democracia na Venezuela2024: A organização Nihon Hidankyo, que atua pela abolição das armas nucleares e foi criada por sobreviventes das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, os chamados hibakushas.2023: A ativista dos direitos humanos iraniana Narges Mohammadi, 51, por apoiar a luta das mulheres pelo direito de elas terem vidas plenas e dignas.2022: O ativista da Belarus Ales Bialiatski, o Memorial, grupo de direitos humanos da Rússia, e o Centro para Liberdades Civis da Ucrânia, por demonstrarem a importância da sociedade civil para a paz e a democracia.2021: Os jornalistas Maria Ressa (filipina) e Dmitri Muratov (russo), pela defesa que fazem da liberdade de expressão, pré-requisito para a democracia e a paz duradoura.2020: Programa Mundial de Alimentos (PMA), por atuar como uma força motriz nos esforços para prevenir o uso da fome como arma de guerra e conflito.2019: O primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, que assinou acordo de paz que pôs fim a duas décadas de hostilidades com a Eritreia.2018: O congolês Denis Mukwege e a iraquiana Nadia Murad, que denunciaram a violência em relação a vítimas de violência sexual como arma de guerra.2017: Campanha Internacional para Abolir Armas Nucleares (Ican), por chamar a atenção para o risco de armas nucleares.2016: Juan Manuel Santos, ex-presidente da Colômbia que negociou o acordo de paz com as Farc2015: Quarteto para o Diálogo Nacional da Tunísia, pela contribuição decisiva na construção de uma sociedade plural no país.**Texto e reportagem: MANOELLA SMITH/FOLHAPRESS

Fonte original: https://dol.com.br/noticias/brasil/965104/nobel-da-paz-premia-navi-pillay-jurista-que-aponta-genocidio-em-gaza