O vício em apostas online pode representar um desafio ainda maior com o fim das bets autorizadas no Brasil. Mesmo após o governo federal publicar, na última sexta-feira (25/09), a Medida Provisória nº 1.394, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que proíbe a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas esportivas e jogos digitais no país, pessoas que desenvolveram dependência podem tentar migrar para plataformas clandestinas para continuar apostando.Segundo a psicóloga Elisa Fontinelli, apesar da medida governamental ser positiva e necessária, ela sozinha não apaga o risco da perda de controle característica do transtorno do jogo. "Para quem desenvolveu uma relação compulsiva com as apostas, retirar as plataformas autorizadas do mercado não necessariamente elimina a necessidade de jogar. Nesses casos, identificar os sinais e buscar atendimento pode ser fundamental para impedir que o problema avance para endividamento, conflitos familiares e outros prejuízos", afirma.CONTEÚDO RELACIONADOLudopatia: entenda a doença do vício em apostas que afeta milhõesOutubro Rosa: câncer de mama também pode atingir mulheres antes dos 40 anosAmbientes físicos podem nos reconectar à realidade em um mundo hiperconectadoATENÇÃO AO PRIMEIRO SINAL DE ALERTAA especialista explica que nem toda pessoa que aposta desenvolve um transtorno do jogo. O primeiro sinal de alerta aparece quando as apostas passam a ocupar espaço crescente na vida e começam a interferir em atividades, relações ou no orçamento. "A OMS (Organização Mundial da Saúde) classifica o transtorno do jogo como um transtorno de comportamento aditivo. Entre os principais elementos estão a dificuldade de controlar o ato de apostar, a prioridade cada vez maior dada ao jogo em relação a outras atividades e a continuidade do comportamento apesar das consequências negativas", explica.Quer mais notícias de saúde? Acesse o canal do DOL no WhatsApp."O Ministério da Saúde também alerta que o problema pode atingir a saúde mental, a situação financeira, a rotina e as relações familiares e sociais", acrescenta.SINTOMAS DE QUE AS APOSTAS ESTÃO SAINDO DO CONTROLEAlguns comportamentos merecem atenção, especialmente quando aparecem de forma repetida:
apostar por mais tempo ou gastar mais dinheiro do que havia sido planejado;ter dificuldade para reduzir ou interromper as apostas;pensar frequentemente em jogos e apostas;comprometer o orçamento pessoal ou familiar;esconder ou mentir sobre quanto está apostando;sentir ansiedade, irritação ou inquietação quando não consegue jogar;apresentar alterações no sono, alimentação ou humor;utilizar as apostas como tentativa de aliviar estresse, frustração ou outros problemas emocionais;deixar de lado atividades, compromissos ou relacionamentos;sentir culpa ou vergonha depois de apostar;aumentar o consumo de álcool ou outras drogas associado ao comportamento.Um ponto especialmente importante é a utilização do dinheiro destinado a necessidades básicas para continuar apostando. Segundo a OMS, os danos relacionados ao jogo podem ocorrer mesmo antes de a pessoa preencher todos os critérios para um diagnóstico de transtorno.A DÍVIDA PODE SER APENAS UMA PARTE DO PROBLEMAAs consequências financeiras costumam ser uma das manifestações mais visíveis do jogo problemático, mas não são as únicas."A OMS relaciona os danos associados ao jogo a estresse financeiro, conflitos e rompimento de relacionamentos, problemas de saúde mental e outras consequências sociais. O dinheiro destinado a despesas essenciais também pode ser desviado para apostas, aumentando o risco de dificuldades com alimentação, moradia e acesso a serviços básicos", alerta Elisa Fontinelli.Por isso, esperar a dívida chegar a um nível insustentável para procurar ajuda pode retardar o cuidado necessário.POR QUE AS APOSTAS ONLINE EXIGEM ATENÇÃO?O ambiente digital facilita o acesso ao jogo. A pessoa pode apostar de praticamente qualquer lugar e a qualquer hora usando um smartphone.De acordo com o Ministério da Saúde, recursos como notificações, bônus, apostas em tempo real e recompensas variáveis podem estimular a permanência e a repetição das apostas.A OMS também aponta a facilidade de acesso, a digitalização e a intensa promoção das apostas como fatores que contribuem para a normalização do comportamento.O QUE FAZER QUANDO PERCEBER OS PRIMEIROS SINAIS?Uma das primeiras medidas é reconhecer que existe um problema e evitar enfrentá-lo sozinho."A orientação para pessoas com dificuldades relacionadas às apostas e seus familiares procurem a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). O atendimento pode começar em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), onde a situação pode ser avaliada e, quando necessário, encaminhada para atendimento especializado em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS)", detalha a psicóloga.Vale lembrar que também existe atendimento remoto pelo Meu SUS Digital, voltado especificamente para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas e seus familiares. O serviço é sigiloso e oferece orientação e acompanhamento profissional.COMO FAZER O AUTOTESTE PELO SUS DIGITALO Ministério da Saúde disponibiliza um caminho digital para quem deseja avaliar a própria relação com apostas.O acesso pode ser feito pelo aplicativo ou pela versão web do Meu SUS Digital, utilizando a conta gov.br. Na página inicial, o usuário deve acessar "Miniapps" e selecionar "Problemas com jogos de apostas?".Depois, é possível responder ao autoteste. Quando o resultado aponta risco moderado ou elevado, o sistema pode encaminhar automaticamente o usuário para o teleatendimento. Nos demais casos, são apresentadas orientações sobre os serviços disponíveis na Rede de Atenção Psicossocial.Desde agosto de 2026, o SUS disponibiliza até 100 mil teleatendimentos mensais para pessoas com necessidades relacionadas a jogos e apostas. O serviço conta com profissionais como psicólogos e enfermeiros e também oferece suporte aos familiares.FAMILIARES TAMBÉM PODEM PROCURAR AJUDAElisa Fontinelli esclarece que o problema não atinge somente quem aposta. Familiares podem enfrentar conflitos, dificuldades financeiras e sofrimento emocional junto com a pessoa afetada."Por isso, o atendimento oferecido pelo SUS também contempla familiares. Eles podem procurar orientação e acolhimento mesmo quando o apostador ainda não decidiu buscar tratamento", destaca.Além da rede pública, grupos de apoio como Jogadores Anônimos oferecem espaços de acolhimento para pessoas que enfrentam problemas com jogo compulsivo. A organização mantém canais e grupos de apoio no Brasil.PROCURAR AJUDA CEDO PODE EVITAR QUE O PROBLEMA AUMENTEO vício em apostas online não precisa chegar à perda de todo o dinheiro, ao rompimento familiar ou ao comprometimento da vida profissional para ser levado a sério.Mudanças no comportamento, dificuldade de parar, preocupação constante com apostas, utilização de dinheiro destinado a despesas importantes e sofrimento emocional já são motivos para buscar orientação.O Ministério da Saúde reforça que o cuidado deve ser realizado de maneira acolhedora e sem julgamentos. Identificar o problema no início permite acessar ferramentas de proteção e atendimento antes que os prejuízos se ampliem.SERVIÇOMeu SUS Digital: acesso ao autoteste e ao teleatendimento para problemas relacionados a jogos e apostas.UBS: porta de entrada para acolhimento, orientação e avaliação.CAPS: atendimento especializado em saúde mental quando houver necessidade.Autoexclusão: ferramenta do Ministério da Fazenda para bloquear o acesso às plataformas de apostas autorizadas.Jogadores Anônimos: grupo de apoio para pessoas que enfrentam problemas relacionados ao jogo.
Fonte original: https://dol.com.br/noticias/te-cuida/964109/vicio-em-apostas-online-como-identificar-antes-que-a-divida-vire-uma-crise




