O bloqueio judicial de contas bancárias para assegurar a quitação de dívidas pode provocar sérios prejuízos à organização financeira dos consumidores, principalmente quando os valores retidos são utilizados para pagar despesas básicas. Trabalhadores, aposentados e famílias de baixa renda estão entre os mais vulneráveis aos efeitos da medida, que pode atingir recursos mantidos em instituições como Nubank, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.A indisponibilidade do dinheiro pode impedir o pagamento de alimentação, moradia, energia elétrica, medicamentos e transporte, além de comprometer outros compromissos financeiros. O economista e professor pós-doutor da Universidade Federal do Pará (UFPA), André Cutrim Carvalho, integrante do Conselho Regional de Economia do Pará e Amapá (CORECON-PA/AP), explica que os impactos da medida ultrapassam a retenção imediata dos valores e podem desencadear um processo ainda maior de desequilíbrio econômico.CONTEÚDO RELACIONADOJustiça pode bloquear contas de clientes com dívidas no Nubank, Itaú, Caixa e BBDesenrola 3.0: dívida de R$ 8 mil pode cair para R$ 800 no Pará? EntendaJustiça proíbe Meta de usar conteúdo jornalístico sem autorizaçãoBloqueio judicial pode agravar dificuldades financeiras



Segundo o especialista, o principal problema está na perda da capacidade de atender às necessidades mais urgentes da família. Isso acontece porque grande parte dos trabalhadores e aposentados utiliza praticamente toda a renda mensal para manter as despesas domésticas, sem conseguir acumular reservas para situações inesperadas."Na possibilidade de ocorrência de um bloqueio judicial de recursos bancários, o consumidor pode enfrentar dificuldades para pagar despesas básicas, como alimentação, moradia, energia elétrica, medicamentos e transporte", afirma Cutrim Carvalho.Quer mais notícias nacionais? Acesse o canal do DOL no WhatsApp.O economista destaca que a situação é especialmente delicada entre as famílias de baixa renda, que possuem pouca ou nenhuma margem financeira para enfrentar imprevistos. Além disso, a retenção dos recursos pode provocar atrasos em outras contas, gerar juros e multas e ampliar o endividamento."Além dos efeitos imediatos sobre o orçamento familiar, existe o risco de agravamento do próprio endividamento, uma vez que a indisponibilidade de recursos pode provocar atrasos em outros compromissos financeiros, incidência de juros e novas dificuldades de pagamento", alerta.Cutrim Carvalho também chama atenção para a necessidade de não responsabilizar exclusivamente o consumidor pela inadimplência. Desemprego, redução salarial e aumento do custo de vida estão entre os fatores que podem comprometer a capacidade de pagamento das famílias."É importante entender que a inadimplência nem sempre decorre de uma escolha deliberada do consumidor, mas também pode estar associada ao desemprego, à redução da renda e ao aumento do custo de vida", ressalta o professor.Planejamento financeiro ajuda a prevenir problemasPara evitar que as dívidas comprometam ainda mais o orçamento, o economista recomenda que o primeiro passo seja organizar as finanças de acordo com a renda disponível. Isso significa estabelecer prioridades, garantindo inicialmente o pagamento das despesas indispensáveis à sobrevivência da família."O primeiro cuidado é manter um planejamento financeiro compatível com a renda disponível", orienta. Entre as medidas práticas, ele recomenda acompanhar mensalmente as receitas e despesas, identificar os gastos fixos e avaliar quais custos podem ser reduzidos ou adiados.Outra providência importante é acompanhar os vencimentos das contas, conhecer as taxas de juros cobradas pelas instituições financeiras e construir uma reserva de emergência, mesmo que os depósitos sejam pequenos. Esse dinheiro pode ajudar em situações como desemprego, problemas de saúde ou redução temporária dos rendimentos.Cartão de crédito e empréstimos exigem atençãoO uso do crédito também merece cuidado. De acordo com Cutrim Carvalho, comprometer uma parcela muito grande da renda com compras parceladas ou recorrer frequentemente ao pagamento mínimo do cartão pode criar dificuldades para equilibrar as contas."No caso do cartão de crédito, o consumidor deve evitar comprometer uma parcela expressiva de sua renda com compras parceladas e, acima de tudo, com o pagamento de apenas uma parte da fatura", recomenda. Ele lembra que essa prática pode levar ao crédito rotativo, modalidade conhecida pela cobrança de juros elevados.O professor também alerta para o perigo de contratar sucessivos empréstimos com o objetivo de quitar dívidas anteriores. Sem uma redução efetiva dos custos financeiros, essa estratégia pode transformar o orçamento familiar em uma sequência de prestações e encargos cada vez maiores."Antes de contratar qualquer operação de crédito, é imprescindível avaliar não apenas o valor das parcelas, mas também o custo efetivo total da operação, os prazos de pagamento e os seus possíveis impactos sobre o orçamento familiar", destaca.Renegociação e orientação jurídica são alternativasQuando surgirem os primeiros sinais de dificuldade financeira, a recomendação é procurar os credores para tentar renegociar os débitos antes que os atrasos se acumulem e a cobrança avance para a esfera judicial. Programas de renegociação, como o Desenrola Brasil, criado pelo Governo Federal, são apontados pelo economista como instrumentos que podem facilitar a regularização das pendências.O especialista também orienta que consumidores com dificuldades nas negociações ou dúvidas sobre contratos procurem órgãos de defesa do consumidor, como o Procon. Se a dívida já estiver sendo discutida judicialmente, é fundamental não ignorar notificações e buscar orientação jurídica o quanto antes, inclusive na Defensoria Pública.Por fim, Cutrim Carvalho ressalta que a prevenção do endividamento não depende somente de medidas individuais de organização financeira. Os padrões de consumo também são influenciados pela publicidade e pelas redes sociais, que frequentemente estimulam a aquisição de produtos e serviços acima da capacidade econômica de parte da população. Para o economista, a recuperação do equilíbrio financeiro exige consciência nas decisões de consumo, mas também o reconhecimento das dificuldades econômicas e sociais enfrentadas pelas famílias brasileiras.

Fonte original: http://dol.com.br/noticias/brasil/967348/bloqueio-judicial-de-contas-veja-como-proteger-seu-dinheiro-e-evitar-problemas