Dormir bem é fundamental para a saúde, mas dormir mais de nove horas de forma habitual também pode ser um sinal de alerta. Estudos citados por especialistas em medicina do sono associam tanto a privação quanto o excesso de sono a maiores riscos de doenças e mortalidade, enquanto neurologista chama atenção para um ponto muitas vezes ignorado: passar muito tempo na cama não significa necessariamente ter um sono de qualidade.A relação entre sono e longevidade já era observada pelo médico grego Hipócrates há mais de 24 séculos. A ele é atribuída a ideia de que tanto o excesso de sono quanto o excesso de vigília podem ser prejudiciais. Para Rosana Cardoso Alves, neurologista especializada em medicina do sono e coordenadora da neurofisiologia clínica do Grupo Fleury, a ciência atual dá respaldo à antiga observação.CONTEÚDO RELACIONADODorme mal? Saiba o que são e como evitar distúrbios do sonoDistúrbios do sono: como identificar e tratar com saúdeComo dormir melhor e cair no sono mais rápidoDORMIR POUCO TAMBÉM COBRA SEU PREÇOOs efeitos da privação de sono são mais conhecidos. Dormir menos do que o organismo necessita pode contribuir para o aumento da pressão arterial e elevar riscos relacionados ao sistema cardiovascular, diabetes, ganho de peso e maior vulnerabilidade a infecções.O problema também pode atingir mecanismos fundamentais do cérebro. Durante o sono, o organismo realiza uma série de processos de manutenção, entre eles a chamada "limpeza" promovida pelo sistema glinfático, responsável por ajudar na remoção de determinadas moléculas e resíduos acumulados no cérebro.Quer mais notícias de saúde? Acesse o canal do DOL no WhatsApp.Quando o descanso é insuficiente ou constantemente interrompido, essas funções podem ser prejudicadas. Segundo Rosana Cardoso Alves, a privação de sono também pode estar relacionada ao aumento do risco de câncer. Uma das explicações estudadas envolve alterações na atividade dos genes e no funcionamento do sistema imunológico.O QUE DIZEM OS ESTUDOS SOBRE EXCESSO DE SONO?
Uma pesquisa publicada em 2010 na revista Sleep reuniu dados de 16 estudos com mais de 1,3 milhão de pessoas acompanhadas por aproximadamente 25 anos. Os pesquisadores observaram maior mortalidade tanto entre pessoas que dormiam menos de seis horas quanto entre aquelas que ultrapassavam nove horas de sono regularmente. Em comparação com quem dormia entre seis e oito horas, o risco foi 12% maior entre os que tinham sono muito curto e cerca de 30% maior entre os que dormiam mais de nove horas.Uma meta-análise posterior, publicada na Sleep Medicine Reviews e envolvendo aproximadamente 5 milhões de pessoas, também encontrou associação entre dormir mais de nove horas habitualmente e maior risco de mortalidade. O estudo apontou ainda associações com diabetes e doença coronariana.Esses números, porém, não significam que dormir mais ocasionalmente seja prejudicial. Uma noite prolongada depois de uma semana cansativa, por exemplo, pode ser apenas uma resposta normal do organismo à necessidade de recuperação.DORMIR DEMAIS PODE ESCONDER OUTRO PROBLEMAPara a especialista, o ponto central é diferenciar quantidade de sono de qualidade do sono. Uma pessoa pode permanecer nove ou dez horas na cama e, ainda assim, não alcançar um descanso reparador.A apneia do sono é um dos exemplos. Durante a noite, a passagem de ar pode ser bloqueada repetidamente, provocando interrupções breves do sono e quedas na oxigenação. Muitas vezes, a pessoa desperta por poucos segundos e sequer percebe que isso aconteceu.O resultado é um sono fragmentado. Mesmo tendo passado muitas horas na cama, o indivíduo pode acordar cansado e continuar sonolento durante o dia.RONCO PODE SER UM SINAL IMPORTANTEO ronco frequente é um dos sinais que podem acompanhar a apneia do sono. A interrupção repetida da respiração pode aumentar o risco de problemas cardiovasculares e comprometer as funções realizadas pelo organismo durante o descanso.Outras condições também podem interferir na qualidade do sono. Pessoas com diabetes mal controlado, por exemplo, podem apresentar episódios de hipoglicemia durante a noite, prejudicando o descanso e contribuindo para a sonolência no dia seguinte.Por isso, alguém que afirma dormir muitas horas, mas continua constantemente cansado, pode precisar investigar a qualidade desse sono.NARCOLEPSIA E HIPERSONIA TAMBÉM ENTRAM NA INVESTIGAÇÃO
A sonolência excessiva pode estar relacionada a diferentes distúrbios do sono. A narcolepsia, por exemplo, é uma condição neurológica que pode provocar episódios irresistíveis de sono durante o dia.Outra possibilidade é a hipersonia idiopática, caracterizada por sonolência excessiva e grande dificuldade para despertar, mesmo depois de um período aparentemente adequado de sono.A investigação médica também pode considerar outras condições, como diabetes, depressão e dores crônicas. Segundo a neurologista, sentir dor ao mudar de posição na cama pode fragmentar o descanso e fazer com que o organismo permaneça sonolento.ATÉ MEDICAMENTOS PODEM INFLUENCIARO uso de determinados medicamentos também precisa ser considerado quando existe sonolência excessiva. Por isso, a avaliação não deve se limitar à quantidade de horas dormidas.O relógio biológico individual também tem influência. Segundo Rosana Cardoso Alves, aproximadamente 20% das pessoas apresentam maior dificuldade para funcionar adequadamente durante o período noturno e podem sentir sonolência quando precisam trabalhar ou permanecer acordadas de madrugada.A identificação desse perfil pode ajudar a organizar melhor horários de trabalho e descanso.QUANDO PROCURAR AJUDA?Nem todo mundo que dorme muito precisa fazer uma polissonografia ou uma bateria de exames. A especialista defende, porém, que médicos de diferentes áreas perguntem aos pacientes sobre a qualidade e as características do sono durante as consultas.A investigação ganha importância principalmente quando existe sonolência excessiva durante o dia, dificuldade persistente para acordar, ronco intenso, pausas na respiração durante a noite ou sensação constante de que o sono não foi suficiente.HIGIENE DO SONO AJUDA, MAS NÃO RESOLVE TUDOHábitos conhecidos como higiene do sono podem melhorar a qualidade do descanso. Entre as recomendações estão manter horários regulares para dormir, evitar refeições muito pesadas à noite, reduzir atividades estimulantes antes de ir para a cama, afastar-se das telas, deixar o celular longe do local de descanso e manter o quarto escuro e confortável.A escolha de uma cama adequada e de um travesseiro confortável também pode contribuir para uma noite melhor.Essas medidas, entretanto, não substituem uma avaliação quando existem sintomas persistentes. Para a neurologista, a melhora após cerca de um mês de mudanças nos hábitos pode indicar que o problema era mais leve. Caso as queixas permaneçam, outras causas precisam ser investigadas.A QUANTIDADE NÃO É TUDODormir ocasionalmente por mais tempo não significa necessariamente que exista um problema. O sinal de alerta está principalmente na necessidade habitual de dormir mais de nove horas acompanhada de sonolência, cansaço ou sensação de sono não reparador.A mensagem atribuída a Hipócrates continua atual: tanto a falta quanto o excesso podem merecer atenção. Mais importante do que contar horas é observar como o corpo responde ao descanso e identificar quando dormir muito deixa de ser apenas uma característica individual e passa a indicar que algo não está funcionando bem.
Fonte original: https://dol.com.br/noticias/te-cuida/963749/dormir-pouco-reduz-a-longevidade-mas-excesso-de-sono-tambem-faz-mal




