Em meio ao avanço da pandemia de Covid-19 e à pressão sobre os hospitais brasileiros, o governo de Jair Bolsonaro mobilizou dez embaixadas para buscar compradores estrangeiros de respiradores produzidos no Brasil. A determinação partiu do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty), em 17 de junho de 2020, quando o país registrava 1.269 mortes pela doença em apenas 24 horas e já acumulava 46.510 óbitos.A iniciativa foi revelada pela organização Fiquem Sabendo, após obter documentos diplomáticos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), conforme matéria publicada pelo ICL Notícias na última terça-feira (03/11). Entre os registros está uma circular reservada, classificada como "urgentíssimo", que orientava as representações brasileiras a identificar governos, hospitais e empresas interessados nos equipamentos.CONTEÚDO RELACIONADOItamaraty convoca diplomata argentina para esclarecer fuga de Flávio BolsonaroAção popular pede suspensão de salário de senador a Flávio BolsonaroApós fuga de Flávio, Carlos resgata vídeo de Bolsonaro citando nazifascismoO Itamaraty, então comandado por Ernesto Araújo, justificou a operação com a possibilidade de que "em breve a produção brasileira de ventiladores pulmonares supere a demanda interna". O documento, entretanto, não apresentava estudos ou projeções que demonstrassem a existência de aparelhos excedentes. A intenção era levantar a demanda presente e futura, as quantidades necessárias e as especificações técnicas exigidas pelos potenciais compradores.Quer mais notícias de política? Acesse o canal do DOL no WhatsApp.A ordem alcançou as embaixadas brasileiras na Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela. As informações coletadas serviriam de base para uma possível ação de promoção comercial dos respiradores no mercado internacional.Hospitais brasileiros enfrentavam falta de respiradoresA busca por compradores no exterior ocorreu em um momento de dificuldades no abastecimento interno. Até o fim de maio de 2020, somente 1.612 dos 14,1 mil respiradores previstos em contratos federais haviam sido entregues. Governos estaduais também denunciavam atrasos no recebimento de equipamentos prometidos pelo Ministério da Saúde para ampliar a capacidade hospitalar.Informes confidenciais da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) apontavam problemas ainda mais graves. Um dos alertas indicava risco de falta de respiradores em Manaus e possibilidade de colapso do sistema de saúde amazonense. Os registros também mencionavam divergências entre as avaliações da superintendência regional da agência e a versão oficial apresentada pelo governo federal.Naquele mesmo dia, uma reunião do comitê de emergência do Ministério da Saúde registrou a orientação de que o governo deixasse claro que não seria responsável pelo fornecimento de respiradores aos estados. Em julho, o Brasil contabilizou aproximadamente 32 mil mortes por Covid-19, o maior número entre os países naquele mês, superando os Estados Unidos.Lei restringia exportação de equipamentos médicosA iniciativa diplomática também enfrentava um obstáculo legal. Desde abril de 2020, uma lei sancionada pelo próprio Bolsonaro proibia a exportação de ventiladores pulmonares e outros produtos médicos durante a emergência sanitária. Eventuais liberações dependiam de justificativa formal e da garantia de que o atendimento à população brasileira não seria prejudicado.Cinco dias antes da circular, o então ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou ter bloqueado exportações de respiradores após receber um alerta do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta sobre os riscos de desabastecimento no país. Guedes também revelou que o Itamaraty pressionava pela liberação das vendas para evitar dificuldades diplomáticas.Embaixada no Equador identificou possíveis interessadosOs telegramas mostram que a iniciativa teve continuidade. Em 24 de julho, a Embaixada do Brasil em Quito comunicou a existência de interesse do sistema de seguridade social do Equador em fornecedores brasileiros de equipamentos biomédicos. A representação solicitou à Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos (Abimo) uma relação de fabricantes nacionais.Uma semana depois, em 31 de julho, outro comunicado informou que a lista havia sido recebida e os contatos encaminhados ao potencial comprador equatoriano. Os documentos não comprovam que respiradores tenham sido efetivamente vendidos ou exportados, mas demonstram que o governo mobilizou sua estrutura diplomática para prospectar compradores internacionais enquanto hospitais brasileiros cobravam equipamentos e enfrentavam dificuldades para atender pacientes com Covid-19.
Fonte original: http://dol.com.br/noticias/politica/967330/governo-bolsonaro-tentou-vender-respiradores-durante-pandemia-da-covid-19
Criar imagem para redes sociais