Curtidas, comentários e notificações podem parecer estímulos inofensivos, mas a frequência com que aparecem nas telas pode dificultar a concentração e aumentar a busca por recompensas imediatas. Segundo a neurocientista Lívia Ciacci, o funcionamento das plataformas digitais explora mecanismos cerebrais ligados à recompensa, o que merece atenção principalmente durante a adolescência. Para a especialista, recuperar o equilíbrio exige mais do que limitar o uso do celular: é necessário desenvolver a educação midiática e estimular atividades fora das telas.Por que as notificações prendem tanto a atenção?Uma das estratégias que tornam as plataformas digitais atraentes é a imprevisibilidade. O usuário não sabe quando receberá uma curtida, um comentário ou uma nova mensagem, o que pode incentivá-lo a conferir o aparelho repetidamente.Lívia compara esse mecanismo ao funcionamento dos caça-níqueis, que utilizam recompensas variáveis para manter as pessoas envolvidas.“As plataformas digitais exploram esse descompasso. Elas funcionam como os caça-níqueis faziam: entregam recompensas imprevisíveis — curtidas, notificações, comentários — no exato esquema de reforço que mais libera dopamina no sistema de recompensa, e que é o mais difícil de largar”, afirma.Quer ler mais notícias de saúde? Acesse o canal do DOL no WhatsApp!A dopamina participa dos processos cerebrais relacionados à motivação, à aprendizagem e à expectativa de recompensa. Quando uma atividade oferece estímulos frequentes e variáveis, ela pode incentivar a repetição do comportamento, como verificar o celular mesmo sem uma necessidade específica.Adolescência exige atenção redobradaA relação com as telas merece cuidado especial durante a adolescência, período em que o cérebro ainda passa por mudanças importantes.Os circuitos envolvidos na motivação e na busca por recompensas apresentam características próprias nessa fase, enquanto o córtex pré-frontal, associado ao planejamento, à tomada de decisões e ao controle dos impulsos, continua amadurecendo até a vida adulta.Segundo a neurocientista, essa diferença pode contribuir para que adolescentes tenham mais dificuldade para resistir a estímulos imediatos em determinadas situações.O impacto pode aparecer na rotina, especialmente quando o uso frequente de dispositivos digitais ocupa o espaço de atividades que exigem paciência, concentração e interação presencial.Como o excesso de estímulos pode afetar a concentração?A exposição constante a conteúdos rápidos e novidades pode tornar atividades menos estimulantes, como ler um livro, estudar ou acompanhar uma conversa longa, aparentemente mais difíceis de manter.Lívia explica que a busca por recompensas imediatas também pode interferir na maneira como as pessoas lidam com a espera e a frustração.“Um cérebro condicionado ao ‘agora’ tem mais dificuldade com o ‘espere, escute, ceda’”, observa.Habilidades como empatia, negociação e resolução de conflitos dependem da capacidade de ouvir, considerar diferentes perspectivas e lidar com situações que não oferecem satisfação imediata.Isso não significa que toda pessoa que utiliza redes sociais terá problemas de atenção ou autocontrole. Os efeitos variam conforme a idade, o contexto, os hábitos e a maneira como a tecnologia é utilizada. O alerta está no uso excessivo que prejudica o sono, os estudos, as relações pessoais e outras atividades importantes.É possível recuperar o interesse por atividades fora das telas?De acordo com a especialista, sim. A atenção pode ser estimulada por meio de mudanças na rotina e da retomada de experiências que exigem envolvimento gradual.Para explicar esse processo, Lívia utiliza a comparação entre refrigerante e água: quem se acostuma a consumir bebidas muito doces pode passar a considerar a água pouco atraente. De maneira semelhante, o contato constante com conteúdos altamente estimulantes pode fazer atividades cotidianas parecerem menos interessantes.“O livro não ficou chato; o cérebro foi recalibrado para achar chato tudo que não pisca colorido”, afirma.A analogia ajuda a ilustrar como os hábitos influenciam a percepção de estímulos. Ao reduzir o excesso de entretenimento digital e recuperar espaço para experiências variadas, é possível voltar a valorizar atividades que exigem mais tempo e concentração.Leitura, música, esportes, brincadeiras, trabalhos artísticos e encontros presenciais são exemplos de experiências que podem contribuir para uma rotina mais equilibrada.Por que proibir o celular nem sempre resolve?Para Lívia, a solução não deve se limitar à retirada dos dispositivos. A educação midiática, que ensina a compreender como as plataformas funcionam e como seus conteúdos são apresentados, também precisa fazer parte da estratégia.“A precaução ambiental (menos tela) e a capacidade crítica interna (educação midiática) devem se somar”, defende.Na prática, isso significa estabelecer limites adequados à idade e, ao mesmo tempo, conversar com crianças e adolescentes sobre o conteúdo que consomem, os mecanismos de recomendação e os interesses envolvidos na dinâmica das redes sociais.A participação dos adultos também é importante. Pais e responsáveis podem assistir a vídeos com os filhos, fazer perguntas sobre o que aparece na tela e ajudá-los a diferenciar informações confiáveis de conteúdos enganosos.“Regular começa pelo espelho”, resume a especialista, ao destacar que os adultos também precisam observar os próprios hábitos digitais.Como estimular a atenção no dia a diaA neurocientista recomenda mudanças práticas para tornar a relação com a tecnologia mais saudável e favorecer a concentração:Priorize atividades essenciais: estabeleça momentos sem celular durante as refeições, antes de dormir e em períodos de convivência familiar.Dê o exemplo: adultos que reduzem o uso do aparelho durante conversas e refeições ajudam a estabelecer hábitos mais equilibrados.Converse sobre o conteúdo: assistir junto, comentar vídeos e questionar informações ajuda crianças e adolescentes a desenvolver o pensamento crítico.Ofereça alternativas interessantes: esportes, música, arte, brincadeiras e projetos presenciais podem proporcionar desafios, diversão e sensação de pertencimento.Preserve o sono e a leitura: garanta espaço na rotina para descansar, brincar livremente e realizar atividades que exigem atenção prolongada.Explique como as plataformas funcionam: compreender o papel dos algoritmos e das notificações ajuda a reconhecer estratégias usadas para manter o usuário conectado.Estimulação cognitiva pode ajudar a reeducar a atençãoOutra estratégia destacada por Lívia é a estimulação cognitiva, que propõe atividades progressivas para exercitar habilidades como atenção, memória, raciocínio e planejamento.“É exatamente esse propósito da estimulação cognitiva: oferecer ao cérebro um estímulo concreto, progressivo e recompensador o bastante para competir com a tela, reeducando a atenção em vez de apenas confiscá-la”, explica.A proposta é ampliar as oportunidades de aprendizagem e envolvimento fora do ambiente digital, sem tratar a tecnologia como necessariamente prejudicial. Quando utilizada de forma consciente, ela também pode contribuir para o conhecimento, a criatividade e a comunicação.O desafio, portanto, é construir uma rotina em que o celular não ocupe o espaço do sono, das relações pessoais, das brincadeiras e das atividades que ajudam a desenvolver a concentração. Mais do que proibir telas, a orientação é ensinar a utilizá-las com equilíbrio e consciência.

Fonte original: https://dol.com.br/noticias/te-cuida/966691/notificacoes-e-redes-sociais-como-o-celular-pode-prejudicar-e-aumentar-a-impulsividade